16 de outubro de 2006

Dez anos sem Renato Russo (parte 2)

O mito, o santo, descansa em um pedestal dourado no céu da cultura. E o homem se contorce em sua tumba por causa da imagem perfeita que se formou ao seu redor (muitas vezes, fomentada pela indústria fonográfica, ávida por explorar o espólio deixado por Renato Russo, como comprovam as toneladas de CDs lançados postuamente, a grande maioria com as mesmas músicas).
Renato, o mito, era um iluminado, capaz de traduzir em palavras os caminhos tortuosos da alma humana. Renato, o humano, era gay, alcoolatra, adicto, depressivo, promíscuo, agressivo. Renato, o mito, dotou de virtude o niilismo deixado pelo punk e o pós-punk. Renato, o humano, era um artista intransigente e quase autoritário. Renato, o mito, elevou Renato, o humano. Renato, o humano, negou Renato, o mito. Renato, o mito, tinha a resposta. Renato, o humano, não sabia qual era a pergunta.
Cara e coroa. E essa dualidade, essa profundidade, foi pouco revisitada nessa semana que passou. Foi ofuscado pelo dia das crianças e pelos 20 anos da Xuxa na Rede Globo. É uma pena. Há muito mais coisa entre a afirmação de independência punk do verso "Tire suas mãos de mim, que eu não pertenço a você" (Verso inicial de Será, primeira música do disco Legião Urbana, o primeiro, de 1985) e o entregamento total de "Fazei com que eu chegue são e salvo na casa da Noélia" (Último verso de Travessia Do Eixão, última música de Uma Outra Estação, último disco, de 1997, lançado após a morte de Renato Russo) do que realmente foi explorado pela mídia. A imagem do mito é mais lucrativa.


------------------------------------------------------------------------------------
L.Kiyoshi. from Vietnan

Nenhum comentário: